terça-feira, 3 de novembro de 2009

“COMUNICAÇÃO A UMA ACADEMIA” MOSTRA COMO ENCONTRAR SAÍDA





Monólogos pululam na cena teatral paulistana, mas “Comunicação a uma Academia” não é como os outros. Trata-se do relato de um macaco para membros de uma academia indefinida. Isso mesmo, um macaco conta, a pedido dos ilustres acadêmicos, como se transformou em homem. Como foi capturado na selva e trazido de navio, preso em uma jaula precária, para a civilização. Como sentiu necessidade de sair daquela situação. Como chegou à conclusão de que deveria imitar os homens
para ser solto.
A montagem do texto é baseada (aliás muito fiel) em conto de Franz Kafka. Logo no início do conto descobrimos que é um macaco quem narra sua experiência. Não causa nenhuma estranheza para quem já leu “Metamorfose”, do mesmo autor, que conta a história de um humano que um dia amanhece como barata. Talvez por isso o personagem de “Um relatório para uma Academia” seja tão frio e inumano na leitura. Não há identificação, apesar de o tema ser muito pertinente e atual.
A peça muda isso. O diretor fez uma leitura que conseguiu “agregar valor” (para usar uma expressão da moda) a um excelente texto. A atriz, Juliana Galdino, deu muita “vida” ao personagem frio. De início nos perguntamos por que uma mulher para o papel do macaco-homem? Mas isso antes de ela entrar em cena. Após, esquecemos seu sexo completamente e acreditamos estar na presença de um primata falante. A entonação, os risos, a comoção de sua voz fazem entender por que a atriz ganhou o prêmio Shell. E ela ainda completa o quadro
com os olhares.
O cenário complementa a atuação de Juliana. É apenas um caixote e uma cabeça de cervo empalhada pendurada na parede. Esse objeto cênico suscita reflexões: ele é diferente do
homem-macaco? Ele é diferente de nós, acadêmicos-plateia? Somos capazes de escapar do que nos oprime e sermos verdadeiramente livres? O macaco-homem diz que não. Nas palavras dele: “Até então eu tivera saída e agora nenhuma. (...) Tivessem me pregado, minha liberdade não teria ficado menor. (...) Eu não tinha saída mas precisava arranjar uma, pois sem ela não podia viver”. Este é o cerne do texto de Kafka. Ansiamos sobreviver, com um mínimo de conforto, e pagamos o preço desse instinto com nossa liberdade. A presença do soldado (Gê Viana) ilustra bem essa condição.
A iluminação é mais um acessório importante para a construção da leitura, nos jogando em uma escuridão opressora. E ocorre a simbiose. Não é mais só o macaco. Nós, confortavelmente, fumamos cachimbo e bebemos aguardente, aliviados de termos nos livrado das barras da jaula que cortavam nossa carne, mas nos dando conta de que não somos livres.
As luzes se acendem, Juliana Galdino volta ao “palco” (um corredor) e dá recados numa voz agradável. Para onde foi a voz do homem-macaco? E caminhamos, eufóricos ou reflexivos,
para a saída.

Silvana Pierro
http://entreparenteses-sil.blogspot.com/

Serviço:
Direção: Roberto Alvim
Com: Juliana Galdino e Gê Viana
Classificação: 16 anos
Texto: Franz Kafka
Clube Noir: R. Augusta, 331 – Consolação – Centro
Telefone: 3257-8129, é preciso reservar, pois há pouquíssimos lugares e razoável procura
Ingresso: R$ 20,00
Horário: sexta e sábado – 21h domingo – 20h.